domingo, 14 de agosto de 2016

Padrões de uso de drogas: Sujeitos, contextos e substâncias.


O uso de substâncias psicoativas acompanha o ser humano desde os tempos mais remotos, apresentando características e significados diversos de acordo com as particularidades de cada população e com o seu momento histórico. O fenômeno da dependência, por sua vez, é extremamente complexo e envolve uma série de fatores. De uma forma geral, são chamadas de “dependentes de drogas” pessoas com realidades individuais extremamente diversas.
É importante lembrar que a dependência de drogas possui três eixos de origem: o sujeito, com suas características de personalidade e singularidade biológica; a substância psicoativa (droga), com propriedades farmacológicas específicas; e o contexto sociocultural (meio ambiente) no qual se realiza o encontro entre sujeito e droga. Na sequência, particularizamos cada parte desses eixos.
Sujeito
O sujeito certamente é o mais complexo dos três elementos que compõem o fenômeno da dependência. Ele pode, ou não, tornar-se dependente de acordo com a relação que estabelece com a droga.  A relação com a droga será influenciada, diretamente, por diversos fatores: sociais, biológicos e psicológicos.
Fatores Biológicos
Entre os fatores biológicos, destacamos, inicialmente, os aspectos genéticos. Vários estudos envolvendo famílias com casos de dependência de drogas vêm evidenciando a importância do fator genético no desenvolvimento do quadro. Todos os estudos apontam que apenas parte do fenômeno pode ser explicada pelos genes em si, ou seja, há outros fatores que são determinantes da manifestação (ou não) da dependência. Em alguns casos, os dependentes de drogas possuem menor número de receptores de dopamina, algo que parece ser geneticamente determinado.
 Assim, para compensar o funcionamento menos eficiente do sistema dopaminérgico, esses sujeitos procurariam formas de estimular esse sistema por meio do uso de drogas. Cabe ressaltar, no entanto, que a influência de fatores genéticos não deve ser entendida como uma fatalidade que vai, necessariamente, fazer com que um sujeito se torne dependente. Entendemos que a presença de determinadas configurações herdadas geneticamente poderia apenas predispor um sujeito a se tornar dependente. Tal quadro só se desenvolveria com a influência de uma série de outros fatores.
 Fatores Neurológicos
Independentemente da existência de uma predisposição genética do sujeito, outros aspectos biológicos desempenham um papel importante no desenvolvimento de uma dependência. Todas as substâncias com potencial de gerar uso abusivo e dependência agem em diversos locais do cérebro, promovendo interações complexas entre as várias vias de neurotransmissão (sistemas de intercomunicação das células nervosas). A ativação da via de recompensa cerebral é o elemento comum ao uso de todas as substâncias psicoativas, gerando reforço positivo (sensação agradável e prazerosa), que leva à intensificação do consumo.
Esse sistema de recompensa é chamado de  e está relacionado a impulsos, instintos e emoções. Essa via está ligada às sensações subjetivas e motivacionais do uso da substância. Além da via mesolímbica, também é estimulada a comunicação com a região frontal do cérebro (denominado via mesocortical), responsável pela experiência consciente dos efeitos da droga e pela capacidade de controlar o seu uso, que se relaciona, portanto, com a compulsão pelo consumo da substância (o descontrole se manifesta na incapacidade de gerenciar a “fissura” ou, dito de outra forma, de controlar o impulso de consumir a droga).
Fatores Psicológicos
O processo de desenvolvimento psicológico de um sujeito se dá a partir da interação entre fatores pessoais e o meio ambiente. Nesse processo, sempre vão existir aspectos da personalidade, menos ou mais desenvolvidos, dificultando ou facilitando sua adaptação ao contexto. Diante das dificuldades do desenvolvimento da personalidade, o sujeito se transforma continuamente (o que se denomina processo de individualização).
Frente a situações vivenciais muito dramáticas, que não conseguem ser elaboradas e transformadas, muitos sujeitos procuram as drogas para fugir dessas dificuldades, o que os coloca em risco de se tornarem dependentes, já que a sensação de profundo bem-estar ocasionada pela droga tende a levar ao impulso de consumi-las. Diferentemente do usuário ocasional ou recreacional de uma droga, o dependente perdeu a capacidade de controlar seu consumo.
Contexto
            O contexto é o cenário onde se desenrola o encontro do sujeito com a droga. Nesse caso, é importante compreendermos a existência de diferentes significados desses usos. Uma droga pode ser utilizada com diversos propósitos: uso recreacional, em rituais (religiosos, por exemplo), uso terapêutico ou como fuga de uma realidade. Tomando como exemplo diferentes contextos e finalidades para o consumo de álcool, uma pessoa pode consumi-lo socialmente, em um encontro com amigos; durante um ritual, como é o caso do vinho, símbolo do “sangue de Cristo” na liturgia cristã; como tentativa de relaxar ou diminuir a ansiedade ao final de um dia difícil ou para não pensar em problemas pessoais de difícil resolução (fuga de uma realidade).

Figura 1: Exemplo de um contexto, casa, família, território de algum sujeito. Fonte: NUTE-UFSC (2016).

Substância
Devemos considerar a forma de apresentação, a acessibilidade e o custo das substâncias, seus diferentes modos de uso (se ingerida, inalada, fumada, injetada) e suas características farmacológicas, incluindo o potencial para gerar dependência e seus efeitos fisiológicos.
Rápido início de ação e efeito intenso estão relacionados a maior potencial de dependência. Substâncias que são eliminadas rapidamente do sangue desencadeiam síndromes de abstinência mais intensas (por essa razão, por exemplo, uma substância fumada ou injetada pode ter maior risco de induzir à dependência do que um produto ingerido ou aspirado).
Figura 2: Substâncias farmacológicas. Fonte: NUTE-UFSC (2016).




A partir do entendimento das relações entre droga, sujeito e contexto, é possível perceber os diferentes usos de drogas apresentados na situação problematizadora. Cada tipo de sujeito traz aspectos psicológicos, sociais e biológicos singulares. Para cada tipo de uso de drogas, há um contexto e um sujeito específicos. Na cena em que os pais do jovem estão em casa fazendo o uso de álcool em frente à TV e nas cenas do bar e da balada com os amigos, é possível observar as especificidades dos contextos em que os usos ocorrem, muitas vezes naturalizados e não vistos como problemáticos. No entanto, quando retratada a cena da praça, onde há pessoas em situação de rua, com uma condição mais extrema de vulnerabilidade social, torna-se mais fácil apontar que este uso de drogas é o mais problemático, sem reconhecer o seu próprio uso de álcool, muitas vezes abusivo, também como problemático.
Fonte: Secretária Nacional de Políticas sobre drogas.

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