“Drogas” Como as lideranças religiosas e lideranças de movimentos afins podem intervir em situações de uso e dependência de álcool e outras drogas.





Prevenir e dar a devida atenção ao uso de álcool e outras drogas. De quem é essa responsabilidade? A quem cabe esse papel?

Muitas são as respostas possíveis e, de imediato, pode se pensar em:

ƒ. Educadores
ƒ. Profissionais de saúde
ƒ. Pais





De fato, em suas comunidades, muitas pessoas e organizações vêm dando atenção a esse assunto, assim como aos problemas associados. Isso pode ser muito bom dentro de uma perspectiva de saúde, educação e inclusão social. Mas também pode ser “perigoso”, se a “ajuda” for baseada somente na “boa vontade”.
Para ajudar não basta querer, é necessário ter um mínimo de conhecimento técnico-científico sobre o assunto, aliado a uma boa dose de solidariedade. A ajuda baseada somente na boa vontade pode, por falta de conhecimento, cair na armadilha de uma atuação preconceituosa e fundamentada em julgamentos morais.


Responsabilidade compartilhada
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Já diz o ditado que “a união faz a força”. E quando o assunto é o uso de drogas, esse ditado pode ser traduzido pelo princípio da responsabilidade compartilhada, que orienta a Política Nacional sobre Drogas (PNAD).
Dessa forma, as ações voltadas à prevenção, ao tratamento ou à reinserção social de usuários de álcool e outras drogas e de seus familiares podem ser ampliadas e fortalecidas, se realizadas com a contribuição dos mais diferentes segmentos sociais.
As lideranças religiosas, assim como as lideranças dos movimentos afins, são, muitas vezes, uma das primeiras e mais acessíveis fontes de apoio e acolhimento dos problemas vivenciados pelas comunidades no que diz respeito ao uso de álcool e outras drogas.

Diante de um assunto tão delicado como esse é comum aflorar, tanto nas pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas quanto em seus familiares, sentimentos de raiva, culpa, medo, vergonha e impotência. São esses sentimentos que, muitas vezes, impedem ou retardam o pedido de ajuda e se contrapõem ao reconhecimento do problema e ao desejo sincero de encontrar alternativas para melhor lidar com a situação.
Certamente, os líderes religiosos ou dos movimentos afins já vivenciaram situações de serem procurados por uma esposa que está sofrendo pela forma com que o marido vem usando bebidas alcoólicas; um pai, mãe ou responsável preocupado pela suspeita de que um membro de sua família possa estar usando algum tipo de droga; ou um membro da comunidade, assustado com o comportamento estranho de um amigo. Muitas são as situações desencadeadoras de sofrimentos individuais e coletivos que envolvem esse tema.


Como lidar com essas situações, se elas aparentemente fogem ao caráter espiritual?

O que fazer?
Como ajudar?
Onde buscar mais ajuda?
Qual o melhor caminho?

De fato, os questionamentos são muitos. Porém, o mais importante é o reconhecimento por parte das lideranças de que, embora não precisem se tornar especialistas, é necessário o domínio dos conceitos básicos sobre drogas, a sua ação no organismo humano, algumas técnicas de abordagem e modalidades de tratamento e de encaminhamento. Com a experiência do próprio trabalho e o acesso a materiais de leitura, esses conceitos são passíveis de serem aprendidos, como mostra um estudo brasileiro de 2008 acerca das intervenções religiosas na recuperação de dependentes químicos. Os entrevistados (ex-usuários de substâncias e abstinentes havia pelo menos seis meses) relataram que além da fé, o suporte, a pressão positiva e o acolhimento recebido no grupo, bem como a oferta de reestruturação da vida com o apoio incondicional dos líderes religiosos, os ajudaram a manter a abstinência (Sanchez & Nappo, 2008). Assim, destacam-se alguns desafios presentes na prática dos líderes religiosos e de movimentos afins.

Alguns dos desafios enfrentados pelos líderes religiosos e de movimentos afins:

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ƒ. Compreender a razão pela qual as pessoas que já têm problemas continuam a fazer uso do álcool e de outras drogas;
ƒ. Identificar a diferença entre um usuário de bebidas alcoólicas, que bebe eventualmente sem causar problemas a si ou a outros, daquele usuário que costuma usar a bebida para lidar com seus problemas, e que pode causar problemas ou sofrer danos relacionados ao seu consumo;
ƒ. Ajudar as pessoas a identificar os motivos que as levam a usar drogas.
A existência de diferentes padrões de consumo de álcool e outras drogas requer o cuidado por parte das lideranças para que as pessoas sejam abordadas de acordo com a sua condição. Saber distinguir uso, abuso e dependência facilita a identificação precoce dos problemas e a escolha da melhor forma de encaminhamento da situação. Como já demonstrado em outras postagens, existem estudos que apontam que a religiosidade e a espiritualidade vêm sendo claramente identificadas como fatores protetores ao consumo de drogas em diversos níveis. Dentre eles, outro estudo de Sanchez e Nappo (2007) demonstra que pessoas que praticam e valorizam alguma crença religiosa apresentam menores índices de consumo de drogas lícitas e ilícitas, e acrescenta ainda que os dependentes de drogas apresentam uma melhor recuperação quando seu tratamento é realizado também com uma abordagem espiritual, de qualquer origem, quando comparados a dependentes que são tratados exclusivamente por meio médico. Deve-se estar atento, no entanto, a se essa abordagem espiritual ou religiosa acontece de forma natural, sem ser uma obrigação e de acordo com a vontade e com as crenças do usuário de drogas.

Os líderes podem se utilizar das técnicas de Intervenção Breve, estratégia que tem por objetivo identificar a existência do problema e motivar o indivíduo para a mudança de comportamento, sugerindo alternativas.

Estas intervenções precoces, que podem ser realizadas na comunidade, são de grande importância, pois permitem que as pessoas recebam orientação na fase inicial dos seus problemas, momento em que, dificilmente, iriam procurar ajuda em serviços de saúde, devido ao mecanismo de negação e aos preconceitos e estigmas que existem em relação aos usuários de álcool e outras drogas. A relação de confiança, de identificação espiritual e a garantia de sigilo das informações trocadas entre as lideranças e as pessoas que buscam ajudam facilitam esse tipo de contato.
Se refletirmos sobre a atuação das lideranças religiosas e dos movimentos afins, podemos traçar um paralelo com as técnicas de Intervenção Breve. Os próprios líderes irão perceber muitos pontos em comum com suas práticas de pregação e orientação. Por exemplo:

1. Ao identificar que a pessoa atendida apresenta algum problema decorrente da forma como vem usando determinado tipo de droga e abordar o assunto, o líder estará fazendo algo equivalente ao primeiro passo da Intervenção Breve: a devolutiva do resultado de um teste de triagem. É muito importante lembrar que essa devolutiva tem o objetivo de mostrar ao usuário como está seu uso e as consequências que podem surgir com esse padrão de uso, mas deve ser feita de forma amistosa e encorajadora, jamais ameaçando ou julgando o usuário;
2. Ao discutir com a pessoa a necessidade de assumir a responsabilidade pelos seus atos, estará colocando em prática o segundo passo da Intervenção Breve;
3. O aconselhamento, terceiro passo da Intervenção Breve, é algo que faz parte do trabalho rotineiro dos líderes religiosos e dos movimentos afins;
4. A discussão de alternativas para a mudança do comportamento, o quarto passo da Intervenção Breve, é prática corrente no dia a dia das lideranças. Essas alternativas precisam ser definidas juntamente com o usuário, para garantir que ele será capaz de realizar as mudanças e que essas mudanças façam sentido para ele;
5. Colocar-se no lugar do outro, procurar entendê-lo – o princípio da empatia – é a aplicação do quinto passo da Intervenção Breve;
6. O sexto e último passo – o princípio da autoconfiança, vai fortalecer na pessoa a crença em sua própria capacidade de mudar.

E está realizada uma Intervenção Breve!

O trabalho das lideranças não se esgota no atendimento de quem já tem algum tipo de problema decorrente do uso do álcool ou outras drogas.
Conhecer a legislação e as políticas nacionais sobre o álcool e outras drogas do Brasil pode fazer a grande diferença na hora de identificar os recursos existentes na comunidade.
Durante o curso vimos que são muito importantes o estabelecimento e o fortalecimento de laços positivos e a reaproximação do usuário com sua família e com a comunidade. Ajudá-los, sem condenar ou emitir julgamento moral, aconselhando-os sobre diferentes formas de enfrentar o problema, pode representar a fonte de energia necessária para a modificação de um comportamento, de um estilo de vida e, principalmente, o restabelecimento de sua rede de relacionamentos, comprometida pelo consumo de álcool e outras drogas.

Por último, as lideranças religiosas ou de movimentos afins devem ter em mente que algumas situações vão requerer o encaminhamento do usuário a um serviço especializado. Isso não significa, porém, que a sua abordagem não tenha sido importante. Muitas vezes, é nessa abordagem que a pessoa se sente motivada a seguir adiante com o pedido de ajuda. Se esse for o caso, é importante que as lideranças religiosas tomem conhecimento dos serviços disponíveis em sua comunidade e ajudem o usuário a encontrar esse serviço especializado. Muitas vezes, por vergonha ou medo, se os usuários não têm uma ajuda na procura desses serviços, eles podem acabar desistindo, não por falta de força de vontade, mas por já estarem muito fragilizados para continuarem sozinhos.
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Importante:

Além do apoio ao usuário, é
preciso intervir na situação familiar. Daí a necessidade de articulação das Organizações religiosas e dos movimentos afins com as redes de saúde e de Assistência social.

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