Com certeza, não existe uma única resposta para a questão, pois se
trata de uma situação complexa, com múltiplos determinantes. Porém, aqui,
especificamente, trataremos de uma das dificuldades com as quais os
profissionais constantemente lidam, que é a “estigmatização” de alguns
problemas de saúde.
Estigmatização
O termo Estigma ou Estigma Público pode ser definido como uma
marca física ou social de conotação negativa ou que leva o portador dessa
“marca” a ser marginalizado ou excluído de algumas
situações sociais. Muitas condições de saúde, dentre elas a dependência de
álcool e de outras substâncias, são estigmatizadas pela população, inclusive
pelos profissionais de saúde.
A
estigmatização ocorre quando se atribui “rótulos” e “estereótipos” negativos a
determinados comportamentos. Tal situação influencia direta ou indiretamente a
condição de saúde da pessoa estigmatizada, provocando diversas consequências, inclusive
o agravamento da situação.
Estereótipos
São características pessoais ou sociais atribuídas a determinadas
pessoas ou grupos, antes mesmo de ser realizada uma avaliação mais cuidadosa
sobre essas características. No Brasil, por exemplo, existem os estereótipos de
pessoas de determinadas regiões em relação ao comportamento. Imagine uma pessoa
nascida na região nordeste ou na região sul, ou em algum estado, como Minas
Gerais ou Rio de Janeiro.
É
bem provável que você tenha uma concepção ou ideia de como essas pessoas falam,
se comportam, se vestem ou se colocam perante as outras. Muitas vezes, fazemos
essas generalizações como se
todas as pessoas de um determinado grupo fossem exatamente iguais.
Na
área da saúde, muitas vezes temos a mesma tendência de classificar o comportamento
das pessoas de
acordo com o problema de saúde ou a “marca” que definimos para elas. Essa tendência
é prejudicial tanto ao profissional, que deixa de perceber ou conhecer o
problema mais a fundo, quanto ao paciente, que deixa de receber uma intervenção
adequada ao seu problema.
Por exemplo, há
alguns anos, ao falar de doenças, tais como Hanseníase (antigamente denominada
lepra) e Tuberculose, havia uma ideia extremamente negativa, tanto da doença
quanto das pessoas que portavam tal problema.
Dentre
as várias consequências desse comportamento para o doente, é possível destacar
o
isolamento
social, a piora da qualidade de vida, e, principalmente, a perda de
oportunidade de acesso a um tratamento adequado. A “marca” ou estigma que essas
pessoas carregavam era colocada tanto pela população em geral quanto pelos
profissionais de saúde, que muitas vezes evitavam tratar dos pacientes ou
recomendavam o isolamento total. Ao longo da história, essas doenças foram
perdendo a conotação negativa e os resultados do tratamento se tornaram
melhores, em função não somente do maior conhecimento técnico sobre elas, mas
também da diminuição da visão estigmatizada do problema.
Em relação ao
álcool e outras drogas, sobretudo as drogas ilícitas, podemos observar que
existe uma forte conotação moral que dificulta abordagens mais adequadas e
maior aproximação dos usuários. Existe uma associação equivocada, por parte da
sociedade e inclusive de muitos profissionais de saúde, de que o usuário é
“fraco”, “sem força de vontade”, “mau caráter” ou que o uso e a dependência são
“problemas sem solução”.
Outras ideias
equivocadas que permeiam nossa sociedade são: “Drogas matam” e “Uma droga leve
é a porta de entrada para drogas pesadas”. Frases como essas, quando analisadas
criticamente, não apenas são ineficazes do ponto de vista preventivo como são
prejudiciais.
Dados que podem
contrapor tais ideias são:
Estudo acerca da
epidemiologia do uso de drogas nos EUA de 1998 aponta que 35% fizeram uso de
substâncias psicoativas (SPA) ilícitas na vida e somente 10% relataram uso
recente de SPA, confirmando que nem todo uso de SPA é necessariamente um uso
problemático;
92% dos jovens
entre 12-17 anos que experimentam drogas não seguem fazendo uso regular.
É muito mais
adequado falar de consumo leve e consumo pesado do que de drogas leves e pesadas,
uma vez que, desconsiderando-se o fato de se tratar de drogas lícitas ou
ilícitas, a intensidade do consumo está muito mais ligada aos prejuízos
biológicos, psíquicos e sociais do que ao tipo de droga utilizada.
O tratamento e a
prevenção adequados devem, portanto, ter bases científicas, levando em
consideração o nível de conhecimento, a capacidade de discernimento e as
escolhas da população a
que se destinam.
Outra imagem
muito comum que os profissionais de saúde têm sobre o usuário de drogas,
sobretudo o usuário de drogas ilícitas, é a de uma pessoa ligada diretamente ao
crime, que não tem amor-próprio, que não se cuida, que não tem família, ou
aquela pessoa que fica caída na sarjeta, lembrando-nos do
“bêbado de sarjeta”.
Atualmente, temos acompanhado o problema do uso de crack e toda a
repercussão junto à opinião pública e à mídia, que muitas vezes generaliza o uso e
o usuário de crack, fazendo uma rápida associação entre o consumo dessa droga por
moradores de rua e as “cracolândias” nas grandes cidades, como se todos usuários de crack
estivessem ligados a comportamentos violentos e fossem todos iguais, de uma maneira
negativa.
O propósito das imagens poderia exemplificar o trabalho com populações nos lugares e nas condições em que vivem, mas também podem contribuir para a
estigmatização.
A despeito da gravidade e da possível evolução dos problemas
relacionados ao consumo de crack, essa generalização muitas vezes exclui e afasta os usuários de
um cuidado adequado e de uma percepção e intervenção para cada caso.
Sobre essa equivocada superposição entre uso de crack e outras drogas
e criminalidade, falta de amor-próprio e autodestruição, seguindo alguns estudiosos
desse tema, podemos afirmar que as políticas repressivas, justificadas pelas questões
legais, ligadas ao tráfico, contribuem de modo significativo para a exclusão social dos
consumidores, na maioria das vezes, as condições nas quais se dá o consumo
desses produtos (sobretudo no caso das drogas ilícitas, cujo consumo ocorre sem qualquer controle de
qualidade e em precárias condições de higiene) agravam em muito os seus efeitos primários
e aumentam as consequências negativas para a saúde, o que fortalece a imagem de
autodestruição atribuída a essa população.
Entretanto, muitas pessoas que trabalham normalmente, têm família e
uma vida socialmente ativa usam álcool ou outras drogas. Por conta dessa imagem distorcida
do usuário, o profissional de saúde perde uma oportunidade importante de intervir em
grande parte da população usuária, por achar que somente aquelas pessoas com o “estereótipo”
do usuário de álcool e outras drogas devem ser abordadas e encaminhadas a serviços
especializados.
Vejamos agora como a estigmatização e os estereótipos interferem na
prevenção, no diagnóstico e no tratamento do uso e abuso de álcool e outras drogas.
No Brasil, até muito recentemente, o uso e abuso de drogas se constituía
num problema à parte dos serviços de saúde e, portanto, do âmbito de serviços
especializados. O problema maior era que grande parte dos estados brasileiros não possuía Centros
de Referência para atenção aos usuários de drogas e para a capacitação de novos
profissionais.
Somente nos últimos três anos é que, por meio de várias Portarias, o
Ministério da Saúde tem estendido a atenção ao uso e abuso de drogas aos Serviços de Saúde
em geral, inclusive aos Programas de Atenção Básica à Saúde (Programa de Agentes Comunitários
de Saúde –
PACS e Estratégia Saúde da Família – ESF).
Essas mudanças, entretanto, ainda se encontram distantes de serem
efetivadas, pelas seguintes razões:
ü Quanto aos levantamentos domiciliares, de estudantes
de nível fundamental,
médio e universitário e mais recentemente
quanto aos usuários
de crack, demonstram que há esforços dos pesquisadores em conhecer melhor essa
realidade brasileira, para
assim, elaborar intervenções
condizentes com a realidade;
ü A estigmatização e os estereótipos relacionados às pessoas que
usam drogas,
sobretudo as ilícitas, que as afastam dos serviços
de saúde;
ü A falta de
profissionais de saúde com treinamento mínimo
necessário para
realizar os cuidados básicos e o encaminhamento adequado dessa população.
Fonte: Tarcísio Matos de Andrade, Telmo Mota Ronzani (Secretaria Nacional de politicas sobre drogas)




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