quarta-feira, 29 de março de 2017

Por que a sociedade estigmatiza os usuários de drogas?



Estigmatização e estereótipos

Com certeza, não existe uma única resposta para a questão, pois se trata de uma situação complexa, com múltiplos determinantes. Porém, aqui, especificamente, trataremos de uma das dificuldades com as quais os profissionais constantemente lidam, que é a “estigmatização” de alguns problemas de saúde.

Estigmatização

O termo Estigma ou Estigma Público pode ser definido como uma marca física ou social de conotação negativa ou que leva o portador dessa “marca” a ser marginalizado ou excluído de algumas situações sociais. Muitas condições de saúde, dentre elas a dependência de álcool e de outras substâncias, são estigmatizadas pela população, inclusive pelos profissionais de saúde.
A estigmatização ocorre quando se atribui “rótulos” e “estereótipos” negativos a determinados comportamentos. Tal situação influencia direta ou indiretamente a condição de saúde da pessoa estigmatizada, provocando diversas consequências, inclusive o agravamento da situação.

Estereótipos

São características pessoais ou sociais atribuídas a determinadas pessoas ou grupos, antes mesmo de ser realizada uma avaliação mais cuidadosa sobre essas características. No Brasil, por exemplo, existem os estereótipos de pessoas de determinadas regiões em relação ao comportamento. Imagine uma pessoa nascida na região nordeste ou na região sul, ou em algum estado, como Minas Gerais ou Rio de Janeiro.
É bem provável que você tenha uma concepção ou ideia de como essas pessoas falam, se comportam, se vestem ou se colocam perante as outras. Muitas vezes, fazemos essas generalizações como se todas as pessoas de um determinado grupo fossem exatamente iguais.
Na área da saúde, muitas vezes temos a mesma tendência de classificar o comportamento
das pessoas de acordo com o problema de saúde ou a “marca” que definimos para elas. Essa tendência é prejudicial tanto ao profissional, que deixa de perceber ou conhecer o problema mais a fundo, quanto ao paciente, que deixa de receber uma intervenção adequada ao seu problema.
Por exemplo, há alguns anos, ao falar de doenças, tais como Hanseníase (antigamente denominada lepra) e Tuberculose, havia uma ideia extremamente negativa, tanto da doença quanto das pessoas que portavam tal problema.
Dentre as várias consequências desse comportamento para o doente, é possível destacar o
isolamento social, a piora da qualidade de vida, e, principalmente, a perda de oportunidade de acesso a um tratamento adequado. A “marca” ou estigma que essas pessoas carregavam era colocada tanto pela população em geral quanto pelos profissionais de saúde, que muitas vezes evitavam tratar dos pacientes ou recomendavam o isolamento total. Ao longo da história, essas doenças foram perdendo a conotação negativa e os resultados do tratamento se tornaram melhores, em função não somente do maior conhecimento técnico sobre elas, mas também da diminuição da visão estigmatizada do problema.
          Em relação ao álcool e outras drogas, sobretudo as drogas ilícitas, podemos observar que existe uma forte conotação moral que dificulta abordagens mais adequadas e maior aproximação dos usuários. Existe uma associação equivocada, por parte da sociedade e inclusive de muitos profissionais de saúde, de que o usuário é “fraco”, “sem força de vontade”, “mau caráter” ou que o uso e a dependência são “problemas sem solução”.
Outras ideias equivocadas que permeiam nossa sociedade são: “Drogas matam” e “Uma droga leve é a porta de entrada para drogas pesadas”. Frases como essas, quando analisadas criticamente, não apenas são ineficazes do ponto de vista preventivo como são prejudiciais.
Dados que podem contrapor tais ideias são:
       Estudo acerca da epidemiologia do uso de drogas nos EUA de 1998 aponta que 35% fizeram uso de substâncias psicoativas (SPA) ilícitas na vida e somente 10% relataram uso recente de SPA, confirmando que nem todo uso de SPA é necessariamente um uso problemático;
92% dos jovens entre 12-17 anos que experimentam drogas não seguem fazendo uso regular.
É muito mais adequado falar de consumo leve e consumo pesado do que de drogas leves e pesadas, uma vez que, desconsiderando-se o fato de se tratar de drogas lícitas ou ilícitas, a intensidade do consumo está muito mais ligada aos prejuízos biológicos, psíquicos e sociais do que ao tipo de droga utilizada. 



O tratamento e a prevenção adequados devem, portanto, ter bases científicas, levando em consideração o nível de conhecimento, a capacidade de discernimento e as escolhas da população a que se destinam.


   Outra imagem muito comum que os profissionais de saúde têm sobre o usuário de drogas, sobretudo o usuário de drogas ilícitas, é a de uma pessoa ligada diretamente ao crime, que não tem amor-próprio, que não se cuida, que não tem família, ou aquela pessoa que fica caída na sarjeta, lembrando-nos do “bêbado de sarjeta”.

    
   Atualmente, temos acompanhado o problema do uso de crack e toda a repercussão junto à opinião pública e à mídia, que muitas vezes generaliza o uso e o usuário de crack, fazendo uma rápida associação entre o consumo dessa droga por moradores de rua e as “cracolândias” nas grandes cidades, como se todos usuários de crack estivessem ligados a comportamentos violentos e fossem todos iguais, de uma maneira negativa.
     
O propósito das imagens poderia exemplificar o trabalho com populações nos lugares e nas condições em que  vivem, mas também podem contribuir para a estigmatização.

  A despeito da gravidade e da possível evolução dos problemas relacionados ao consumo de crack, essa generalização muitas vezes exclui e afasta os usuários de um cuidado adequado e de uma percepção e intervenção para cada caso.
Sobre essa equivocada superposição entre uso de crack e outras drogas e criminalidade, falta de amor-próprio e autodestruição, seguindo alguns estudiosos desse tema, podemos afirmar que as políticas repressivas, justificadas pelas questões legais, ligadas ao tráfico, contribuem de modo significativo para a exclusão social dos consumidores, na maioria das vezes, as condições nas quais se dá o consumo desses produtos (sobretudo no caso das drogas ilícitas, cujo consumo ocorre sem qualquer controle de qualidade e em precárias condições de higiene) agravam em muito os seus efeitos primários e aumentam as consequências negativas para a saúde, o que fortalece a imagem de autodestruição atribuída a essa população.

Entretanto, muitas pessoas que trabalham normalmente, têm família e uma vida socialmente ativa usam álcool ou outras drogas. Por conta dessa imagem distorcida do usuário, o profissional de saúde perde uma oportunidade importante de intervir em grande parte da população usuária, por achar que somente aquelas pessoas com o “estereótipo” do usuário de álcool e outras drogas devem ser abordadas e encaminhadas a serviços especializados.
       Vejamos agora como a estigmatização e os estereótipos interferem na prevenção, no diagnóstico e no tratamento do uso e abuso de álcool e outras drogas.
       No Brasil, até muito recentemente, o uso e abuso de drogas se constituía num problema à parte dos serviços de saúde e, portanto, do âmbito de serviços especializados. O problema maior era que grande parte dos estados brasileiros não possuía Centros de Referência para atenção aos usuários de drogas e para a capacitação de novos profissionais.
Somente nos últimos três anos é que, por meio de várias Portarias, o Ministério da Saúde tem estendido a atenção ao uso e abuso de drogas aos Serviços de Saúde em geral, inclusive aos Programas de Atenção Básica à Saúde (Programa de Agentes Comunitários de Saúde –
PACS e Estratégia Saúde da Família – ESF).
Essas mudanças, entretanto, ainda se encontram distantes de serem efetivadas, pelas seguintes razões:

ü   Quanto aos levantamentos domiciliares, de estudantes
de nível fundamental, médio e universitário e mais recentemente
quanto aos usuários de crack, demonstram que há esforços dos pesquisadores em conhecer melhor essa realidade brasileira, para
assim, elaborar intervenções condizentes com a realidade;

ü    A estigmatização e os estereótipos relacionados às pessoas que
usam drogas, sobretudo as ilícitas, que as afastam dos serviços
de saúde;

ü   A falta de profissionais de saúde com treinamento mínimo
necessário para realizar os cuidados básicos e o encaminhamento adequado dessa população.


Fonte: Tarcísio Matos de Andrade, Telmo Mota Ronzani (Secretaria Nacional de politicas sobre drogas)










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